No Home Movie por Ariel Schweitzer

No Home Movie por Ariel Schweitzer

Olmo e a Gaivota de Petra Costa e Lea Glob

Dirigido em Paris por uma brasileira (Petra Costa) e uma dinamarquesa (Lea Glob), produzido por um americano (Tim Robbins) e um português (Luis Urbano), reunindo uma comediante italiana (Olivia Corsini) e um ator francês (Serge Nicolaï), Olmo e a Gaivota é revelador da maneira como nascem os filmes hoje. Fruto de uma nova geografia do cinema, esse filme poderia ser mais um produto do cinema de autor globalizado, formatado, que cruzamos muito nos circuitos dos festivais. Felizmente, ele é tudo menos isso. Desde os primeiros minutos, ele toca por sua originalidade, sua inteligência e sua coerência. Olmo e a Gaivota não só derruba molduras geográficas, ele circula livremente, com elegância, entre ficção, documentário e diário íntimo, tudo nos levando à um reflexão sobre as relações entre a vida e sua representação.

Olivia e Serge são um casal na vida comum e no teatro, onde eles encenam juntos uma intepretação francesa de A Gaivota, de Tchekhov. Antes de partir em tournée, Olivia engravida e deve respeitar uma gestação sob vigília. Fica fechada em seu apartamento, enquanto seu companheiro continua a ensaiar e encenar a peça, Olivia atravessa uma crise existencial que a faz se interrogar sobre sua futura maternidade, sua vocação artística e sua vida de casal. Os elos com a peça de teatro são evidentes, mas não muito insistentes e suficientemente abertos à interpretações múltiplas. As angústias de Olivia ressonam às vezes entre a personagem de Nina, a jovem atriz ambiciosa sonhadora de uma carreira artística, e a de Arkadina, a glória passada do teatro, a mulher e atriz envelhecida encarando seu declínio. Essa circulação entre muitos personagens (Serge encena ora Trigorine ora Treplev) se inspira dos métodos de trabalho do Théatre du Soleil, de Ariane Mnouchkine (extratos dos espetáculos Les Éphémères surgem entrecortando o filme).

Olmo e a Gaivota seduz pela maneira que integra essas diferentes matérias ficcionais (as referências teatrais notadamente) em uma linguagem documental - do diário filmado - e em uma filmagem que acompanha a verdadeira gravidez de Olivia desenrolada no apartamento do casal. Em uma voz off doce, às vezes engraçada, frequentemente melancólica, Olivia expressa sua solidão, seus medos e suas frustrações face à sua condição de reclusa. Sua exclusão forçada do mundo do teatro na espera interminável do parto: “Eu me sinto como se um alienígena se alimentasse de mim e me impusesse as regras do jogo”. Como nos grandes filmes de reclusão de Chantal Akerman (Là-bas ou No Home Movie), o apartamento é percebido às vezes como uma matriz protetora, um local de isolamento e uma armadilha onde a única forma de sair é a imaginação. As lembranças pessoais de Olivia emergem na superfície na forma de velhos filmes super 8 e vídeos caseiros ressuscitando o tempo de sua infância e de sua adolescência, e o surgimento improvisado dessas imagens de grande doçura e grande beleza plástica estão entre os momentos mais belos do filme.

Olmo e a Gaivota é também um filme sobre a coesão de um casal. Separados entre suas ambições profissionais e a necessidade de preservar seu amor, Olivia e Serge enfrentam essas provas através da palavra, compartilhando seus mais íntimos sentimentos (Olivia evoca seu ciúme de ver Serge ensaiar em casa a peça que ela se encontra excluída, ou ainda teme que ele conheça uma atriz mais jovem que ela). Essa solidariedade se manifesta em uma cena emocionante, a partir do fim do filme, durante a festa que o casal organiza antes do nascimento da criança, quando Olivia, vítima de uma crise de pânico, se fecha no banheiro e começa a chorar, e que Serge, atrás da porta, consegue pacientemente acalmá-la cantando Les Feuilles Mortes como uma canção de ninar amorosa.

“Um Filme sendo feito”, obra verdadeiramente coletiva e em grande parte improvisada, Olmo e a Gaivota consegue costurar pelo cinema a lacuna entre a vida e o teatro. Olmo, o bebê cujas imagens depois do seu nascimento acompanham os créditos finais, é o fruto dessa vida transcendida pela arte, uma experiência à qual ele empresta justamente seu nome.


“Olmo e a gaivota”

30/06/2016 em Pais e Filhos

Olivia e Serge são um casal de atores que se preparam para encenar “A Gaivota”, de Tchekov, quando descobrem que ela está grávida. Além de a gravidez a impedir de continuar a atuar, devido ao tamanho da barriga, o risco de parto prematuro, obriga-a a passar grande parte da gravidez dentro de casa.

Habituada a controlar o seu corpo e a sua vida, Olivia vê-se agora presa nesta gravidez, encontrando-se com os seus medos mais obscuros, confrontando os seus desejos de liberdade e independência com os limites impostos pelo próprio corpo.

Ao mesmo tempo vê o seu marido manter a sua vida normal, o que gera também alguns conflitos entre o casal. É aqui que se começa a perceber que esta gravidez e este casal são reais.

Um documentário/ficção que retrata a gravidez com uma crueza e sensibilidade assombrosas.


O improvável em estado de graça

30/06/2016 por Jorge Mourinha em Público

Há uma curiosa dimensão de “filme improvável”, diríamos mesmo quase de “filme impossível” em Olmo e a Gaivota, obra tecnicamente dirigida a quatro mãos mas na prática feita a oito mãos, com os seus actores/personagens a serem verdadeiros co-autores do filme. Esse lado de filme impossível aparece porque damos por nós a perguntar – e não sem alguma razão – como é sequer possível que o resultado de três anos de rodagem e pós-produção tenha saído tão bem feitinho e formadinho do que parece ser uma babel de línguas, países e técnicos. Nascido de um encontro entre uma cineasta dinamarquesa quase estreante e uma brasileira com experiência promovido pelo festival CPH:DOX de Copenhaga, Olmo e a Gaivota envolveu ainda capitais franceses e portugueses na sua produção. O filme tem cinco montadores creditados, passa por quatro línguas, e apesar de acompanhar a gravidez real da actriz italiana Olivia Corsini, levanta sistematicamente a dúvida sobre onde é que termina o documentário e começa a ficção.

Ora, esta história de uma mulher cuja gravidez a leva a questionar a sua vida é tudo menos um filme abertamente “de tese” ou “de tema”, e recusa-se a ceder à meditação mais ou menos sisuda sobre a maternidade. É verdade que Olivia é actriz, logo talvez pense demasiado nas coisas – e o lado “a vida é um palco” é o que de menos interessante Olmo e a Gaivotatem, apenas porque as realizadoras não trazem especiais novidades a uma dimensão que as artes sempre gostaram de explorar. Mas, por uma vez, isso não é forçosamente problema, e passa rapidamente para segundo plano face à extraordinária leveza, ao suave pudor com que as cineastas filmam a intimidade deste casal cuja vida acaba de ser voltada do avesso pela experiência da gravidez. Sem voyeurismos gratuitos mas antes com uma sensação de sermos bem-vindos na vida de Olivia e do seu companheiro Serge Nicolaï, um convite para vivermos esta experiência com eles e percebermos o que é que transportar uma vida nova significa para uma mulher. Talvez seja aí que reside o triunfo deste híbrido que não reinventa a roda mas que também não o quer fazer: é um filme feliz, em estado de graça, que encontra razões para celebrar as coisas simples de estarmos vivos.


Retrato de mulher grávida em caos feliz

30/06/2016 por Jorge Mourinha em Público

Duas realizadoras, uma brasileira, outra dinamarquesa, acompanham uma actriz italiana e e o seu companheiro francês durante os nove meses de uma gravidez à beira de um ataque de nervos. O resultado, Olmo e a Gaivota, é documentário ficcionado. Ou ficção documental. Ou nem uma coisa nem outra.

“Um dia na vida de uma mulher, no qual não acontece nada, mas tudo acontece dentro da sua mente e do seu corpo.” O que quer que seja que se leia nesta frase da realizadora brasileira Petra Costa (n. 1983) não corresponderá por inteiro aquilo que está no écrã em Olmo e a Gaivota. O projecto pode ter começado por aí, como explica Costa sentada ao lado da sua co-realizadora dinamarquesa Lea Glob (n. 1982), mas rapidamente Olmo e a Gaivota deixou de ser um dia na vida de uma mulher. Porque “essa mulher engravida e o que começa por ser um dia torna-se em nove meses, e ela depois tem uma hemorragia e tem de ficar em casa e o filme quase é cancelado… Mas a Lea disse 'não. Se ela não pode sair, vamos nós entrar no apartamento.'”

Olmo e a Gaivota, então, começou por ser um dia e acaba por ser nove meses na vida de uma actriz e do seu companheiro, actores no Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine. A gaivota do título é a Gaivota de Tchekov, que a italiana Olivia Corsini (n. 1979) e o francês Serge Nicolaï (n. 1967) ensaiam numa versão livre no princípio do filme, antes da feliz notícia lhes virar a vida de pernas para o ar. Olmo é o nome do menino, hoje com dois anos e que tem acompanhado os pais em muitas das viagens da equipa desde que o filme estreou no concurso Cineastas do Futuro na edição 2015 do festival de Locarno. Portugal, onde Olmo e a Gaivota esteve a concurso no IndieLisboa (antecedendo a sua chegada às salas, esta semana) não foi excepção: Olmo diverte-se com uma câmara fotográfica pelos corredores da Culturgest enquanto os pais e as realizadoras dão entrevistas, tira fotos ao pai, à mãe, ao pessoal da organização, numa espécie de “caos feliz” que parece conquistar quem o rodeia mas que é algo que se reconhece como presente no próprio filme.

“A Petra e a Lea conseguiram transpor bastante bem quem nós somos,” explica Olivia Corsini enquanto Olmo se diverte. “A ideia do caos feliz é algo em que nos revejo, mesmo agora com o miúdo… A Petra – e falo dela porque foi quem conhecemos primeiro – foi tocada pela maneira de ser e viver que nos é própria. Se eu e o Serge estamos juntos há doze anos, é porque conseguimos criar o nosso «animal» de quatro patas, e que é agora de seis, que é um animal grande mas bastante leve.” Ri-se. “Somos bordélicos, somos complicados, somos excessivos, mas somos divertidos!”

Olmo e a Gaivota acompanhou nove meses na vida de uma actriz e do seu companheiro, a italiana Olivia Corsini e o francês Serge Nicolaï - e Olmo tem hoje dois anos DR

A dúvida metódica

É uma deixa tão boa como qualquer outra para conversarmos sobre um filme que começou por ser um convite formulado pelo festival dinamarquês de cinema documental CPH:DOX. Olmo e a Gaivota é um documentário sobre a gravidez de Olivia, é uma versão ficcional desses nove meses, ou é outra coisa qualquer? Afinal, vemos a actriz na casa de banho a fazer testes de gravidez, ou numa consulta médica, ou a fazer ecografias. Mas também a vemos a cantar, com uma peruca e maquilhagem, para um Serge que ensaia um papel à mesa do jantar e parece não lhe ligar nenhuma. Às tantas, no meio de uma discussão entre ambos, o filme literalmente pára, e ouvimos uma das realizadoras a pedir que Olivia e Serge recomecem a discussão num outro tom… Em que ficamos?

“É muito aborrecido,” admite Serge Nicolaï meio a sorrir, “quando as pessoas fazem essa pergunta sobre a parte de realidade e a parte de ficção. Porque não queremos responder. Queremos proteger um pouco a parte de dúvida, que é também importante para o próprio espectador. Não temos vontade de oferecer uma solução sobre o que é ficcional ou não.”

Petra Costa diz que “o filme existe precisamente nessa corda bamba entre ficção e realidade”. Lea Glob prefere chamar-lhe “não-ficção,” explicando que “é essa busca que motiva o filme e o público. A razão pela qual integrámos algumas dessas… «intervenções» era tornar muito específico que não há verdadeiramente maneira de perceber onde começa a ficção e termina a realidade.”

Voltamos, então, ao princípio: em 2012, no programa de produção do CPH:DOX, intitulado CPH LAB, que todos os anos junta, durante uma semana, realizadores que não se conhecem para desenvolverem um projecto em comum que o festival ajudará em seguida a montar. Petra Costa era a “veterana” (já com uma longa prévia, Elena), Lea Glob a “noviça” (com uma única curta). Encontraram terreno comum num romance de que ambas gostavam muito, Mrs. Dalloway (1925) de Virginia Woolf. Lea explica porquê: “Estávamos fascinadas pela dimensão de stream of consciousness da narração [do livro] e queríamos tentar aplicar o formalismo da literatura à linguagem do cinema. Em vez de fazermos um filme que fosse puramente ficção, pensámos em pegar em alguém que representasse a sua própria vida, e depois que esse alguém poderia ser uma actriz.” Petra: “Queríamos trabalhar um pouco como se faz no teatro ou na commedia dell'arte, improvisando, com as cenas a surgir dessa improvisação mas de forma menos hierárquica, mais como se fôssemos um colectivo de autores”.

Olivia Corsini, que já conhecia Petra das passagens pelo Brasil do Théâtre du Soleil e por isso se tornou na escolha evidente, recorda que nas primeiras conversas com as realizadoras essa dimensão ambígua já existia. “A ideia era guardar a estrutura de Mrs. Dalloway, com os monólogos interiores e a festa final, mas substituindo as memórias ficcionais da personagem pelas da verdadeira actriz,” diz, antes de explicar porque quis aceitar o desafio de ser o “centro” do filme. “Quando se é actor num colectivo, estamos 40 pessoas em palco e, mesmo quando se tem um papel principal, estamos a partilhar a nossa responsabilidade e os holofotes com toda a gente. Ter artistas interessados na minha pessoa e nos meus pensamentos foi extremamente importante: ver que elas tentavam compreender o que me acontecia e o que isso ia desencadear, as reflexões a que isso levava.”

Lea Glob e Petra Costa, realizadoras - a gravidez tornou-se central para a afirmação do projecto DR

Este é o meu corpo

Eis senão quando… feliz notícia: Olivia está grávida. “Íamos em digressão com a companhia para a Ásia e estávamos a terminar uma produção quando percebemos que o filme ia mudar porque a Olivia estava grávida,” explica Serge. “A Petra disse-me logo para levar uma câmara e um microfone e filmá-la.” “Assim que engravidou, demos à Olivia um gravador e pedimos-lhe para gravar todos os seus pensamentos, dúvidas, ansiedades, e enviávamos-lhe perguntas,” diz Petra. “Esse diário tornou-se o seu companheiro de viagem mais íntimo, e formou muito o guião do filme, não apenas ao nível da voz off mas também ao nível de inspirar cenas baseadas naquilo que estava no diário.”

Tudo se complicou devido à necessidade de Olivia ter de ficar em casa e mover-se o menos possível na sequência de uma hemorragia interna, literalmente interrompendo a sua vida de actriz. Daí nasceu também aquela que é, para Petra Costa, uma das questões centrais do filme: “Quando se é actor e se está sempre a representar um papel, que tipo de turbulência sísmica acontece quando já não há máscaras a que se possa recorrer? A contradição existe entre aquilo que ela é forçada a representar enquanto mulher, que é uma grávida estática, e aquilo que ela queria ser, que é uma grávida activa. A gravidez é de certo modo a morte da pessoa que ela era até então, e o nascimento de uma nova pessoa, e de uma nova Olivia, que aceita finalmente que as coisas não vão ser iguais.”

Claro que não vão, como se ri Olivia. “O teu próprio corpo acaba por te impor que sejas o centro, porque ficas enorme! Quando andas na rua, as pessoas afastam-se, quando entras num restaurante as pessoas puxam a cadeira para te sentares… A natureza é bem feita, tudo é feito para que tenhas um pequeno momento de protagonismo, o que é correcto porque é um momento em que a mulher é protagonista. Tudo aconteceu de maneira muito sensível; os lugares escolheram-se de modo bastante orgânico.”

Serge, praticamente o único homem no meio deste filme de mulheres (“mesmo na equipa havia muitas mulheres, como a Lisa Persson que foi uma das primeiras operadoras de câmara, ou as montadoras...”), acabou por apreciar o seu estatuto de “secundário” naquilo que seria a história de Olivia. “O meu papel estava, indirectamente, escrito para não estar frente à câmara, acaba por reflectir que eu não queria cair num estereótipo no qual não me revejo. Permitiu-me abordar o meu quotidiano de futuro pai com muita delicadeza e muita atenção, estar lá na medida do possível sabendo bem que tudo o que se fazia era a Olivia que o fazia. Era o momento dela.”

O tabu da maternidade

Esse momento – a gravidez – tornou-se central para a afirmação do projecto, como defende Petra. “Muitos não percebem o efeito que uma gravidez tem na mente de uma mulher, mesmo quando não acontece. Chegadas a uma certa altura da nossa vida, estamos sempre a pensar nisso, como uma presença ausente. Fiquei muito chocada pelo facto de haver tão poucos filmes sobre isso, e mesmo da literatura sobre a gravidez ser muito rara.” Para Lea, “é um tabu tão grande! É um tema muito controverso, muito provocatório. Surpreenderam-me as reacções tão diferentes ao filme...” “Houve quem perguntasse a certa altura ao Ingmar Bergman porque é que ele fazia filmes feministas,” continua Petra, “e ele respondeu que as mulheres são retratadas de modo tão estúpido na maioria dos filmes que ele apenas tentava mostrá-las como elas realmente são. Isso cria muita turbulência quando o tentamos fazer. No Brasil, por exemplo, o filme levantou imensas questões sobre a representação da mulher e sobre os tabus da maternidade que ultrapassaram as nossas expectativas.”

Ainda assim: mostrar desta maneira o desenvolvimento de uma gravidez, num projecto de forma tão fluida como este, implicava também um acréscimo de dúvida para os seus protagonistas, “expostos” de um modo que não lhes é habitual. Afinal, no filme Olivia e Serge chamam-se Olivia e Serge, são actores, vivem em Paris... “Passou-nos evidentemente pela cabeça que poderíamos estar-nos a expôr em demasia,” admite Olivia, “mas eu pelo menos estou contente por ter expulsado essa dúvida muito depressa. Tinha consciência que, quanto mais fundo fôssemos, mais íntimo e universal seria o filme”. “Mas enquanto temos às vezes necessidade que nos ponham nos carris,” contrapõe Serge. “Aqui, havia uma liberdade enorme, mas perguntávamo-nos que estávamos a fazer. Tínhamos vontade de representar mas elas não queriam, «como assim, não querem? Estamos aqui para representar, somos actores!»”

“E em frente a uma câmara!”, ri-se Olivia. “O Serge costuma dizê-lo de forma muito simples. Somos dois actores, existe uma câmara, portanto é impossível não representarmos. Mas creio que elas conseguiram criar uma atmosfera de confiança. Nós fizemos o nosso trabalho de actores, elas o seu trabalho muito sensível e preciso de realizadoras. Nós estávamos na exposição, mas não na análise – essa era a parte delas. Nunca tivemos medo que o material que estávamos prestes a dar se voltasse contra nós. Por isso, penso que ousámos dizer coisas que não teríamos ousado dizer ou contar num quadro mais «frio».” Serge prefere usar a palavra “distanciamento”: “A partir do momento em que a câmara «entrou» na gravidez, conseguíamos falar indirectamente de coisas que não teríamos conseguido abordar na intimidade, das quais teríamos talvez passado ao lado. Pessoalmente, eu navegava pela rodagem como algo que não procurava controlar. Fazíamos as coisas, vivíamos experiências.” “E a parte ficcional existia para nos proteger um pouco,” como diz Olivia. “Dizíamo-nos que, assim como assim, estávamos a representar, e tudo isto poderia bem ser ficção!”

Pelo meio de todas as convulsões e confusões, chegamos assim ao final (feliz) de Olmo e a Gaivota. O filme que Petra Costa e Lea Glob quiseram fazer não é forçosamente o mesmo que acabaram por fazer, ao longo de um processo por vezes “muito doloroso”. (Lea: “Apesar dos desafios, nunca pusemos em causa que devíamos continuar, havia uma espécie de acordo. Mas na verdade subestimámos as dificuldades.”) No entanto, acaba por sê-lo. “O princípio do filme era um dia na vida de uma mulher onde tudo acontece dentro da sua mente e do seu corpo,” reitera Petra Costa. “Isso, mesmo com todas as mudanças, mantém-se no filme.


Entrevista a Petra Costa e Lea Glob, realizadoras de «Olmo e a Gaivota»

02/07/2016 por Hugo Gomes em C7nema

Por entre a realidade filmada em jeito documental e a encenação não como um dispositivo fictício, mas antes uma ferramenta para compreender esse mesmo veio de veracidade, Olmo e a Gaivota [ler crítica] é um dos filmes mais fascinantes a chegar aos nossos cinemas este ano. As autoras desta obra, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob, falaram com o C7nema sobre esta colaboração não voluntária que resultou numa catarse sobre o cinema propriamente dito, sem limitações a géneros nem estilos. No seio de Olmo e a Gaivota esconde-se ainda temáticas a merecer da nossa consideração, algumas delas fazendo parte da luta de Petra, os direitos das mulheres e a soberania destas pelo seu próprio corpo. Começo com a pergunta mais básica, como surgiu este projeto? Petra Costa: Este projeto surgiu através do Dox Lab, num festival da Dinamarca. Todo os anos são convidados dez realizadores não-europeus para codirigir com dez europeus. Eu fui convidada para trabalhar com a Lea, tinha até um certo interesse no cinema dinamarquês e queria conhecer um pouco mais sobre ele. Tínhamos uma semana para decidir que tipo de filme iríamos conceber, mesmo antes de conhecer-nos pessoalmente. Vim com dez ideias que tinha guardado desde então, uma delas era a documentação de um dia na vida de uma mulher onde nada acontece, mas que tudo acontece na sua cabeça. Entretanto, a Lea sugeriu: "e que tal pegasse-mos numa mulher real". Ela estava mais interessada em fazer documentário e no meu caso, ficção. Ela queria ir para a Amazónia e eu para Dinamarca. "Sim, vamos pegar numa mulher real, mas se for atriz, pegaríamos na vida real dela, e eu conheço uma atriz". A atriz que falava era Olivia Corsini, que estava no momento a fazer uma turneê no Brasil através da companhia teatral francesa Theatre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [Elena]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos uma reunião através do Skype com Olivia que demonstrou automaticamente interesse. Todavia, ela disse "estou grávida", e foi aí que decidimos alargar um dia para nove meses. Lea Glob: Foi um convite através do CPH:Dox, a escolha seguiu do comité do festival, por isso não tivemos decisão nenhuma com a formação deste par. Enquanto isso, eu tinha visto Elena, e encontrei similaridades com a minha curta [Mødet med min far Kasper Højhat], ambos falavam de histórias pessoais que tinham como temática o suicídio. Esse era o primeiro filme da Petra, e no meu caso, tinha acabado de formar na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, eu sou europeia, ela não, por isso julgo que quem decidiu esta dupla encontrou uma espécie de ligação, algo em comum. O facto de trabalhar com uma atriz, seria a melhor forma de trabalhar ambos os lados, o lado ficcional e o lado verídico, neste caso documental? LG: Absolutamente, tal era essencial. Aliás ela era bastante dada a trabalhar desta maneira, isso nota-se ao longo do filme. Ao trabalhar com atores assim tornaríamos realizadores mais livres e chegaríamos facilmente à intensidade do material. PC: Na grande maioria dos documentários, uma das grandes questões é ter acesso ao personagem e a questão dos limites, se está ou não a invadir a vida daquela pessoa, ou se está usando ela num filme que supostamente poderá não ser tratada da forma como ela pretende. Mas a grande vantagem de trabalhar com um ator é que o desejo é recíproco, ela não quer contar uma história, ela quer ser usada, porque essa é a sua profissão, o seu desejo, a de estar ao serviço de uma história nem que para isso tenha que usar o corpo e a mente. Mas quando a história é na realidade a vida dela, o ângulo inverte mas continua no âmbito do desejo. No caso de Petra, visto que já conta com duas longas-metragens, Elena e Olmo e a Gaivota, existe uma palavra que caracteriza esse seu cinema - intimidade. Enquanto que em Elena, o espetador sentia-se incomodado por invadir a sua intimidade, neste filme, estamos a invadir a intimidade de uma atriz, o qual em certas sequências Olivia pede mesmo para parar. Como sente em invadir a intimidade de outras pessoas? PC: É um pouco mais que isso, porque é justamente nessas questões que estou a falar, quando é a sua própria intimidade vai da vontade, não existe um limite imposto. Mas essa tensão foi frutífera, é como estivéssemos constantemente a jogar aquele jogo de cordas onde cada um puxa para o seu lado. Nós tentamos chegar um pouco mais fundo na intimidade dela, e ela, com clareza, deixava, depois há um momento em que colocamos visivelmente as nossas interações com ela. Nesse aspeto, tratou-se de revelar esse limite - as portas - como as do banheiro que se fecham, neste caso conseguimos estar do lado dentro do banheiro (risos). Em Olmo e a Gaivota, o que é que poderemos considerar ficção e documentário? LG: Não existe resposta para isso (risos), nem sei se consigo responder corretamente a isso. Julgo que é a mais bela parte do filme, porque incentiva os espetadores, mas não se trata de um jogo do que é falso ou real. Diria antes que é uma "onda" de interação, sim diria antes isso, e como tal gosto do filme por causa disso, porque faz-me sentir que fizemos algo certo naquilo. PC: Sim, essa é a questão que motiva o filme, que analisa todas as cenas, é como fizéssemos um filme hermafrodita, qual seria a parte masculina, qual seria a feminina. O filme é precisamente a tensão entre os dois géneros. Quais as grandes influências para a condução deste filme? LG: O teatro, assim como a peça de Anton Tcheknov, que foram bastantes importantes para o tom do filme. PC: Primeiramente o teatro, Olivia integrava o Theatre du Soleil, por isso temos registos dos seus ensaios e encenações. Temos ainda influências do cinema francês, não da Nouvelle Vague, mas da fação Rive Gauche, como Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda, que usualmente abordam as questões da identidade, da memória, mais do feminino. O livro de Virgina Woolf, Miss Dalloway, que foi para nós essencialmente um guia, visto que era para ser um dia na vida de uma mulher, mas que fez com que olhássemos para a vida de Olivia através da moldura desse livro. No final, Olmo e a Gaivota resultou num retrato de um romance. Uma romance entre dois atores, marido e mulher que teriam que lidar com o maior dos fardos. O filme captou esse amor na sua integral forma, relembro da sequência musical [Mi Sono Innamirato di Te], por exemplo. Tal fator [o romance] já estava prescrito na ideia ou foi uma oportunidade que surgiu durante o processo? LG: Diria que foram os dois casos. Visto que temos uma história sobre gravidez e era normal termos um amor, uma relação amorosa, que poderíamos aprofundar. Bem, eu penso que sou a pessoa mais romântica da "equipa" (risos) o que fez também abordar esse tópico. É bom sentir o amor, e existe bastante neste filme. Petra também mencionou que tal transmitia uma empatia entre os dois, não apenas como marido e mulher, mas também como atores, o que permitiu-nos segui-los, o qual tornaram uma relação gentil. Eles são gentis juntos, e isso foi bom. Quanto às canções, como também muitos outros gestos, surgiram através deles. Foram tudo ideias deles. PC: Sim, penso que isso está muito presente na sua relação. Talvez tenhamos provocado mais o outro sentido, do que mostrar mais amor. O amor surgiu naturalmente, assim como demonstraram as "fraturas" desse relacionamento. Quanto a novos projetos? Regressarão como equipa ou separadamente? LG: Bem, ambas temos novas ideias, mas serão em separado. Não temos ideia de regressar a esta colaboração, quer dizer, se Petra pedir estarei disponível, assim vice-versa. As portas estão abertas e continuarão assim. Neste momento, estou a preparar um filme sobre a sexualidade, a interpretação de mulheres através de memórias erradicadas, como elas procedem a esse encontro. PC: Estou a trabalhar num filme ficcional que decorre nos anos 80, no Brasil, sob o ponto-de-vista de uma jovem rapariga, focando na maneira como ela interage com a diferença de classes e politicas. Também estou a trabalhar num documentário sobre a crise politica brasileira. Para Petra, gostaria de falar sobre a sua campanha "O Meu Corpo, as Minhas Regras"? PC: Sim. Surgiu quando o nosso filme ganhou o Prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio. Fiz um discurso em que dedicava o prémio a todas as mulheres, para que nenhuma sofresse de machismo no Brasil, desde a presidenta até à doméstica, e que todas tivesse a soberania sobre o próprio corpo, seja para mergulhar numa gravidez como a nossa personagem, com todos os direitos para isso, ou fosse para interromper, como já é legal na França e EUA há mais de quarenta anos. Nessa noite fui dormir feliz, até porque tinha ganho um prémio (risos) e feito um discurso. Na manhã seguinte, acordo com uma invasão de milhares de comentários muito agressivos na minha pagina de Facebook, "sua abortista, você deveria morrer, é pena que a tua mãe te teve, fecha a perna, sua vagabunda", um machismo que nunca tinha encontrado, pelo menos a este nível. O que demonstra um ódio crescente que o Brasil tem experimentando. Então através disto fiz um video, pelo qual já tinha vontade de fazer, que tratasse das questões do filme que não estão claramente abordadas nela, que é a falta de interpretação de mulheres no cinema, a questão do corpo e do próprio aborto. Tinha alguns atores que tinham visto o filme e que tinha gostado, e então sugeri a ideia, eles gostaram e prosseguimos com a iniciativa. A ideia era pegar no figurino de Olivia, mulheres e homens engravidando até para colocar na mente das pessoas o que aconteceria se o sexo masculino pudesse mesmo engravidar. No Brasil, muitos colocavam a hipótese se o homem engravidasse o aborto já teria sido legalizado há muitos séculos. O video surgiu disso, brincar com todas essas questões e ele viralizou, teve umas 14 milhões de visualizações e partilhas em diferentes páginas de Facebook. Acabou por virar uma "onda", que fora a primeira "onda" feminista de grande impacto no Brasil. O país teve um movimento feminista nos anos 60 e 70, mas foram bastante reprimidos. Ou seja, eles afirmaram menos do que desafirmaram, virou quase "xingamento", só em novembro do ano passado é que ser feminista deixou de ser "xingamento" no Brasil. Tudo também foi possível porque temos um forte antagonista que é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que é um dos políticos mais machistas que o Brasil presenciou, e também um dos corruptos, o qual vem retrocedendo diversas pautas que foram conquistados pelas mulheres. O que está a tentar dizer que o Brasil é no fundo um país conservador? É um país contraditório, para muitos é a terra do samba, da mulher "pelada", do homem cordial, da igualdade racial, mas isso é falso de certa forma, essas contradições é como estivessem enterradas por ali. Somos um país que comemora a democracia, mas na realidade ela é uma fina camada de papel, que por baixo vai sendo corroída por ratos. Esses mesmos ratos, comeram, comeram, até que quebraram a coluna vertebral, e os ratos estão agora expostos, mas na verdade eles sempre estiveram ali. Talvez seja do facto do Brasil nunca ter tido uma Guerra Civil como os EUA ou uma grande luta pela independência. Nunca houve esse embate de ideais. Hoje assistimos a um país sob uma Guerra Civil retardada, uma parte, esclavagista, machista, oligarca e conservadora contra uma outra porção que luta pelos direitos humanos.


A vida improvisa-se em 'Olmo e a Gaivota'

03/07/2016 por Manuel Halpern em Visão

Um filme de uma intimidade profunda que nos ajuda a refletir sobre a maternidade nos tempos modernos.

A dupla de realizadoras brasileira, Petra Costa e Lea Glob, acompanhou de perto, à distância de um palmo, o casal de atores ítalo-gaulês Olivia Corsini e Serge Nicolai. Se as poucas cenas de palco de Olmo e a Gaivota são impressionantes, tudo o que se passa nos bastidores, na intimidade do casal, é de um naturalismo primoroso, raro de encontrar em obras cinematográficas. Desde os pormenores espirituosos da relação do casal, à notícia da gravidez de Olivia, acompanhada à lupa pelas realizadoras, que provoca uma significativa mudança de humor e redefinição do casal.

A maternidade, ainda em estado pré-natal, e a condição feminina de puérpera acabam por ser o tema dominador de Olmo e a Gaivota. Assistimos não só às alterações do corpo (da barriga que cresce ao dente que cai), mas também do espírito (da solidão à insegurança). Nada é visto como um sonho cor-de-rosa, mas sim como uma terna observação da inevitável instabilidade a que as mães se sujeitam, e de como a natureza pode ser injusta para as mulheres no atual contexto social (por causa do bebé, Olivia perde o seu papel na peça de Tchekhov, enquanto Serge continua a trabalhar).

Em vez de tomar como certa a observação de uma realidade exterior, Olmo e a Gaivota leva a sério a proposta de filmar as entranhas da alma, como que colocando a câmara do lado de dentro das personagens. De tal forma que acaba por se tornar quase indiferente a discussão clássica em torno de objetos híbridos ou modernistas – será que é documentário ou ficção? É carne e osso. Tal é conseguido através desse jogo realidade-ficção, facilitado pelo facto dos protagonistas serem bons atores e servirem-se da sua capacidade de improviso. E a vida improvisa-se. O território dúbio serve essa vontade maior de espreitar os contornos da alma. Olmo e a Gaivota, vencedor de vários prémios, é rodado em França, por uma equipa brasileira, e coprodução portuguesa de O Som e a Fúria.